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sexta-feira, 7 de junho de 2013

A transmissão cultural e a linguagem. 2° ano

A transmissão cultural e a linguagem
O homem só existe enquanto ser cultural. É a cultura que nos humaniza como seres humanos. Não é a inserção em grupos que nos distingue dos outros animais, pois todos já puderam observar que os animais, de uma forma geral, vivem, na sua maioria, imersos em grupos. Logo, os animais podem viver em sociedade, mas não podem desenvolver cultura.
   As abelhas se organizam em grupos e possuem regras e atividades para cada um. Mas as abelhas de uma mesma espécie sempre se relacionam com o mesmo meio da mesma forma. Só ocorre uma alteração no seu comportamento devido a alguma alteração no meio, mas caso isso não ocorra, elas simplesmente reproduzem o seu modo de vida.  Desta forma pode-se dizer que elas se adaptam ao meio, ou a alterações ao meio, mas não o transformam. Essa capacidade de transformar o próprio comportamento e a natureza é própria do homem.
    Entre as abelhas existe sociedade, mas não existe cultura. Existem indivíduos ordenados como coletividade em que pode haver uma divisão do trabalho, de sexos e idades. Mas não há cultura, pois não há tradição viva, elaborada de geração para geração que permita tornar única e singular uma dada sociedade. Uma tradição viva nada mais é do que um conjunto de escolhas. Ter tradição não significa só viver determinadas regras, pois os animais vivem regras, mas viver conscientemente as regras. Sob determinadas circunstâncias, os animais vão sempre agir e reagir da mesma forma. Se eles mudam suas regras, o fazem por mudanças no meio. Já com o homem não acontece o mesmo. Os animais não produzem tradições que os diferenciem. A cada grupo humano corresponde uma tradição cultural.

    Por exemplo, não há como mostrar uma casa e dizer: esta é uma casa tipicamente humana, como se ela representasse todas as casas humanas. Mas posso tomar qualquer casa de joão-de-barro e dizer que é uma casa típica de joão-de-barro. Não interessa se do Brasil ou de Portugal.
O papel da linguagem na transmissão cultural e os meios de comunicação de massa
Como vivemos em sociedade, não é possível deixar de lembrar que não há cultura individual e que toda cultura é socialmente partilhada. O homem ao nascer é absolutamente frágil, um dos seres mais frágeis que existem. Assim como outros mamíferos, ele precisa que alguém lhe dê água, comida, abrigo e limpeza.
   Mas, ao contrário dos outros animais, praticamente tudo pode ser ensinado para um homem na primeira infância. Assim, um bebê nascido no Brasil pode ser retirado de seus pais e criado por outra família na China e ele vai agir, falar e pensar de acordo com os hábitos culturais dessa família que o adotou. Ele não gostará de arroz com feijão e terá dificuldade de pronunciar palavras na língua portuguesa, caso algum dia venha para cá. Ele pensará como um chinês e falará como tal. Provavelmente gostará de comidas que, para o paladar brasileiro, são consideradas inadmissíveis, como escorpiões e certos tipos de insetos. Ele saberá comer com palitos, e não com garfo e faca. Enfim, agirá e pensará como um chinês, embora tenha nascido de pais brasileiros. O mesmo não ocorre com os animais. Um gato, por exemplo, pode até ser criado com uma família de cachorros, mas nunca latirá. Isso porque seu comportamento é regido muito mais pelos seus instintos.
   E o ser humano? O que rege o nosso comportamento?
    O comportamento do ser humano é regido por padrões culturalmente transmitidos pela linguagem.
Logo, para os seres humanos, a linguagem tem papel importantíssimo na apreensão dos conteúdos simbólicos, pois é por meio dela que nos tornamos seres humanos. É por intermédio dela que os padrões culturais são transmitidos por meio de símbolos e sinais. E na nossa sociedade existem vários mecanismos de transmissão cultural.
   Alguns grupos dos quais fazemos parte são um importante mecanismo de transmissão cultural, como a família, os amigos, o trabalho, a vizinhança, a escola, entre outros. Outros mecanismos de transmissão cultural são os meios de comunicação, como a televisão, o rádio, a internet, os jornais, além dos livros, das obras de arte, entre muitos outros.
  Se a linguagem é a forma mais importante de transmissão cultural, cada vez mais na nossa sociedade essa se dá pelos meios de comunicação de massa. Eles são importantíssimos para que possamos compreender o que se passa na sociedade e como devemos agir socialmente.

Karl Marx, texto 1. 3° ano

Karl Marx (1818- 1883, Alemanha).

A obra de Marx é uma profunda analise da raiz e dos desdobramentos do  sistema capitalista
“Toda obra de Marx interpreta como o modo de produção capitalista mercantiliza as relações, as pessoas e as coisas, em âmbito nacional e mundial, ao mesmo tempo em que desenvolve as suas contradições”
Ianni, Octavio (1979), Marx – Sociologia. Grandes cientistas sociais; Editora Ática.

 
Ele analisa as estruturas que mantém esta ordem social e econômica e descobre que:

- O capitalismo mercantiliza TODAS as relações em TODOS  os lugares que chega
- e, ao mesmo tempo, desenvolve contradições: a riqueza de uns é a miséria de muitos.

 Desenvolve um método de análise e interpretação do capitalismo: materialismo dialético e materialismo histórico.

Materialismo dialético é uma concepção filosófica que defende que o ambiente, o organismo e fenômenos físicos tanto modelam os animais e os seres humanos, sua sociedade e sua cultura quanto são modelados por eles. Ou seja, que a matéria está em uma relação dialética com o psicológico e social. Se opõe ao idealismo, que acredita que o ambiente e a sociedade com base no mundo das ideias, como criações divinas seguindo as vontades das divindades ou por outra força sobrenatural.
“Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.” Marx in Ideologia Alemã.

O materialismo histórico é uma abordagem metodológica ao estudo da sociedade, da economia e da história. O materialismo histórico procura as causas de desenvolvimentos e mudanças na sociedade humana nos meios pelos quais os seres humanos produzem coletivamente as necessidades da vida. As classes sociais e a relação entre elas, além das estruturas políticas e formas de pensar de uma dada sociedade, seriam fundamentadas em sua atividade econômica.

Dialética: tudo funciona em relação de antagonismo, para existir exploradores precisa existir explorados, para existir uma classe social paupérrima é preciso existir uma classe social rica...

“A história de toda a sociedade até aos nossos dias nada mais é do que a história da luta de classes.” Marx in Manifesto Comunista de 1847

O capitalismo produz coisas (mercadorias) e isso quase sempre ocorreu na história da humanidade, mas neste sistema econômico social a mercadoria DOMINA e determina tudo (exemplos: cidade, gosto musical, religião, etc.) e ele produz a MAIS-VALIA. É um sistema de mercantilização universal e de produção de mais-valia. Tudo vira mercadoria ao mesmo tempo: coisas, relações, pessoas...
Transforma pessoas em mercadorias

Mais-valia no dicionário online
 s.f. Na doutrina marxista, a remuneração do capitalista, consequência de uma espoliação dos trabalhadores assalariados, que, em troca de sua força de trabalho, recebem apenas o valor das mercadorias e serviços indispensáveis à sua subsistência. (A diferença entre o valor dos bens produzidos e os salários recebidos constitui a "mais-valia", de que se apropriam os capitalistas.)



“Mais-valia e mercadoria são a condição e o produto das relações de dependência, alienação e antagonismo operário e do capitalista, um em face do outro”  - Octavio Ianni.

Significado de Alienação
s.f. Ação ou efeito de alienar: alienação de uma propriedade.
Jurídico. Ato de transferir para alguém uma propriedade ou um direito: alienação de um apartamento.
Resultado de algum tipo de abandono ou efeito da ausência de um direito comum: alienação da segurança.
Filosofia. Hegelianismo. Quando a consciência torna-se desconhecida a si própria ou a sua própria essência.
Informal. Desinteresse por questões políticas ou sociais.
Psicologia. Estado da pessoa que, tendo sido educada em condições sociais determinadas, se submete cegamente aos valores e instituições dadas, perdendo assim a consciência de seus verdadeiros problemas.
Psicopatologia. Perda da razão, loucura: alienação mental.
Psiquiatria. No desenvolvimento de um sintoma clínico algumas pessoas ou situações comuns tornam-se estranhas ou perdem sua natureza familiar.
Alienação a título gratuito, doação.
pl. alienações.
(Etm. do latim: alienatione.m)
 


Proletariado: É o conjunto de trabalhadores que necessitam vender a sua força-de-trabalho a um empresário capitalista.
Burguesia: O termo Burguês origina-se dos mercadores que viviam nos Burgos (cidades protegidas por muralhas), no fim da idade média, após o Feudalismo. Segundo Karl Marx, Burguesia se refere hoje à classe dominante da sociedade, a classe que detém os meios de produção e o capital.

Ser radical: é ir nas raízes das coisas

“Toda ciência seria supérflua, se a aparência exterior e a essência das coisas coincidissem diretamente”
MARX, K. O Capital, T. III, p. 948.

Classes sociais na obra de Marx.
As relações de produção regulam tanto a distribuição dos meios de produção e dos produtos quanto a apropriação dessa d





istribuição e do trabalho. Elas expressam as formas sociais de organização voltadas para a produção. Os fatores decorrentes dessas relações resultam em uma divisão no interior das sociedades.
Por ter uma finalidade em si mesmo, o processo produtivo aliena o trabalhador, já que é somente para produzir que ele existe. Em razão da divisão social do trabalho e dos meios, a sociedade se extrema entre possuidores e os não detentores dos meios de produção. Surgem, então, a classe dominante e a classe dominada (ou seja, a dos trabalhadores). O Estado aparece para representar os interesses da classe dominante e cria, para isso, inúmeros aparatos para manter a estrutura da produção. Esses aparatos são nomeados por Marx de infraestrutura e condicionam o desenvolvimento de ideologias e normas reguladoras, sejam elas políticas, religiosas, culturais ou econômicas, para assegurar os interesses dos proprietários dos meios de produção.
Percebendo que mesmo a revolução burguesa não conseguiu abolir as contradições entre as classes, Marx observou que ao substituir as antigas condições de exploração do trabalhador por novas, o sistema capitalista de produção em seu desenvolvimento ainda guarda contradições internas que permitem criar condições objetivas para a transformação social. Contudo, cabe somente ao proletariado, na tomada de consciência de classe, sair do papel de mero determinismo histórico e passar a ser agente dessa transformação social.
As contradições são expressas no aumento da massa de despossuídos, que sofrem com os males da humanidade, tais como a pobreza, doenças, fome e desnutrição, e o atraso tecnológico em contraste com o grande acúmulo de bens e riquezas em grandes centros financeiros e industriais. É só por meio de um processo revolucionário que os proletários de todo o mundo, segundo Marx, poderiam eliminar as condições de apropriação e concentração dos meios de produção existentes. Acabando a propriedade desses meios, desapareceria a burguesia e instalar-se-ia, transitoriamente, uma ditadura do proletariado até que se realizem as condições de uma forma de organização social comunista.
Por João Francisco P. Cabral
Colaborador da Brasil Escola
Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP


Alienação
A alienação ou estranhamento é descrita por Marx sob quatro aspectos:

1. O trabalhador é estranho ao produto de sua atividade, que pertence a outro. Isto tem como consequência que o produto se consolida, perante o trabalhador, como um “poder independente”, e que, “quanto mais o operário se esgota no trabalho, tanto mais poderoso se torna o mundo estranho, objetivo, que ele cria perante si, mais ele se torna pobre e menos o mundo interior lhe pertence”;
2. A alienação do trabalhador relativamente ao produto da sua atividade surge, ao mesmo tempo, vista do lado da atividade do trabalhador, como alienação da atividade produtiva. Esta deixa de ser uma manifestação essencial do homem, para ser um “trabalho forçado”, não voluntário, mas determinado pela necessidade externa. Por isso, o trabalho deixa de ser a “satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer necessidades externas a ele”. O trabalho não é uma feliz confirmação de si e desenvolvimento de uma livre energia física e espiritual, mas antes sacrifício de si e mortificação. A consequência é uma profunda degeneração dos modos do comportamento humano;
3. Com a alienação da atividade produtiva, o trabalhador aliena-se também do gênero humano. A perversão que separa as funções animais do resto da atividade humana e faz delas a finalidade da vida, implica a perda completa da humanidade. A livre atividade consciente é o caráter específico do homem; a vida produtiva é vida “genérica”. Mas a própria vida surge no trabalho alienado apenas como meio de vida. Além disso, a vantagem do homem sobre o animal – isto é, o fato de o homem poder fazer de toda natureza extra-humana o seu “corpo inorgânico” – transforma-se, devido a esta alienação, numa desvantagem, uma vez que escapa cada vez mais ao homem, ao operário, o seu “corpo inorgânico”, quer como alimento do trabalho, quer como alimento imediato, físico;
4. A consequência imediata desta alienação do trabalhador da vida genérica, da humanidade, é a alienação do homem pelo homem. “Em geral, a proposição de que o homem se tornou estranho ao seu ser, enquanto pertencente a um gênero, significa que um homem permaneceu estranho a outro homem e que, igualmente, cada um deles se tornou estranho ao ser do homem”. Esta alienação recíproca dos homens tem a manifestação mais tangível na relação operário-capitalista.
Por João Francisco P. Cabral
Colaborador da Brasil Escola
Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP


quarta-feira, 15 de maio de 2013

1° ano. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA IDENTIDADE



A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA IDENTIDADE

Como forma de fechamento da discussão iniciada no início do ano com as aulas sobre as formas de socialização, a questão das relações e interações sociais e a construção de papéis, vamos agora discutir a construção social da identidade. Já sabemos que o homem só existe como ser social e que, para tanto, ele passa pelos processos de socialização primária e secundária. E já temos a consciência de que tais processos se dão por meio da incorporação de papéis socialmente construídos. Chegou o momento de compreender como se dá o processo de construção da identidade.
Nesta etapa é necessário compreender o caráter processual de toda construção identitária. A sociedade define o homem, mas agora chegou o momento de entender que o homem também define a sociedade (BERGER, 1976, p. 171).


“Talvez seja útil acrescentar que o conceito de identidade humana está relacionado com um processo. É fácil isso passar despercebido. À primeira vista, as afirmações-eu e as afirmações-nós talvez pareçam ter um caráter estático. Eu, diria alguém, sou sempre a mesma pessoa. Mas isso não é verdade. Aos 50 anos, Hubert Humbert é diferente da pessoa que era aos dez. Por outro lado, a pessoa de 50 anos mantém uma relação singular e muito especial com a de dez. Aos 50, já não tem a mesma estrutura de personalidade dos dez anos, mas é a mesma pessoa. É que a pessoa de 50 anos proveio direta- mente da de um, dois, e, portanto, da de dez anos, no curso de um processo específico de desenvolvimento. Essa continuidade do desenvolvimento é a condição para a identidade do indivíduo de dez e de 50 anos.”
ELIAS, Nobert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p. 152.

Chegou o momento de entender os mecanismos de construção da identidade. Toda identidade é relacional, ou seja, marcada pela diferença (WOODWARD, 2000, p. 9). O ser humano, para construir um Eu, precisa construir esse Eu em uma relação com um outro. Em outras palavras, para que qualquer Eu surja, é preciso que exista alguma coisa ou alguém que possa ser classificado como outro. Normalmente acreditamos que a identidade tem a ver com identificar-se com os iguais. Mas é preciso entender que existem pessoas iguais e queremos nos unir a elas, isso ocorre porque acreditamos que existam os que sejam diferentes. Não interessa se essas diferenças realmente existem, se elas  se baseiam em fatores reais ou imaginários. Para a diferença existir, basta que as pessoas acreditem que ela exista.
Essa construção se dá por meio de símbolos¹, ou seja, ocorre o que chamamos de uma marcação simbólica. Por meio da marcação simbólica os grupos expressam sua identidade uns para os outros. Na maioria das vezes, o símbolo pode ser um objeto, mas ele também pode ser um sinal, um elemento gráfico, entre outros. Ele passa uma mensagem, um significado, que é entendido pelos outros grupos. Por exemplo: uma casa não é somente uma casa em nossa sociedade. Uma casa também pode ser um símbolo e assim passar uma mensagem. Se ela é pequena e está localizada em um bairro mais simples, ela transmite a ideia de que seus donos não têm muitas posses. Se ela é grande, possui piscina e um espaçoso jardim, transmite a ideia de que os proprietários têm dinheiro e a casa pode ser um símbolo de prestígio social. A capacidade de atribuir significados às coisas que nos cercam é típica do ser humano e serve para expressar ideias e conceitos e ajudar as pessoas na construção de sua identidade.
Em sociedade, os indivíduos se identificam com grupos e pessoas e usam símbolos para expressar o pertencimento a determinado grupo social. As roupas que você usa, as músicas que ouve, os livros que lê, o time de futebol de sua predileção, entre muitos outros fatores, também podem servir para mostrar o grupo do qual você faz parte, pois podem servir para a marcação simbólica entre grupos. Elas podem expressar ideias e conceitos que ajudam as pessoas a construir sua identidade.
 Por meio das marcações simbólicas os indivíduos dão sentido à sua vida. Ao receber uma identidade, as pessoas constroem um lugar no mundo.

“Receber uma identidade implica na atribuição de um lugar específico no mundo. Assim como esta identidade é subjetivamente apreendida pela criança (‘eu sou John Smith’), o mesmo se dá com o mundo para o qual a identidade aponta. A apropriação subjetiva da identidade e a apropriação subjetiva do mundo social são apenas aspectos diferentes do mesmo processo de interiorização, mediatizado pelos mesmos outros significativos”.
BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 178.

Esse lugar no mundo não é imutável. Durante a sua vida, o indivíduo passa por diferentes experiências, absorve distintas vivências, que fazem com que modifique a sua relação com o mundo, daí o caráter processual de toda construção identitária. Por isso é possível dizer que nunca somos, mas sempre estamos. Infelizmente, usamos no nosso dia-a-dia o verbo “ser” para nos definir, mas na verdade deveríamos usar o “estar”. Isso é parte do caráter processual da identidade. Concebê-la como um processo significa justamente isso: entender que a construção da identidade de  uma pessoa só acaba com a sua morte. À medida que ela passa por diferentes situações (criança, jovem, adulto, filho, mãe, pai, avó, avô, aposentado, desempregado, empregado,
empregador, entre outras), vai incorporando diferentes papéis e atitudes diante da vida,  do mundo e de si mesma.
Ao construir sua identidade, a pessoa cria uma identidade para si e uma identidade para o outro. Ou seja, existe a forma por meio da qual ela se vê e existe a maneira pela qual os outros a veem. Às vezes uma coincide com a outra e em outros casos, não. De qualquer forma, ambas se interligam, mas isso não ocorre de forma simples. Nunca é possível ter certeza de que  a sua identidade para você concorda com a sua identidade para os outros.

“Ora, todas as nossas comunicações com os outros são marcadas pela incerteza: posso tentar me colocar no lugar dos outros, tentar adivinhar o que pensam de mim, até mesmo imaginar o que eles acham que penso deles etc. Não posso estar na pele deles. Eu nunca posso ter certeza de que minha identidade para mim coincide com minha identidade para o Outro. A identidade nunca é dada, ela sempre é construída e deverá ser (re)construída em uma incerteza maior ou menor e mais ou menos duradoura”.
DUBAR, Claude. A socialização e construção das identidades sociais e profissionais. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 135.

Claude Dubar enfatiza o caráter processual da construção identitária no trecho acima. Afinal, se por um lado a identidade está sempre se desenvolvendo, pois passamos por diferentes situações em nossas vidas que contribuem para isso (como, por exemplo, ser jovem, adulto, casado, pai, mãe etc.), por outro, esse desenvolvimento não está apenas relacionado com os diferentes papéis que assumimos ao longo de nossa vida, mas também com a mensagem que passamos ao incorporar esses papéis. Essa mensagem é sempre passada por meio da linguagem via comunicação.
Mas toda comunicação traz consigo incertezas. Nunca podemos saber totalmente se o outro compreendeu a mensagem que passamos da forma que queremos que ele a compreenda. O ser humano não é fruto só do seu olhar sobre si próprio, mas também do olhar e da compreensão dos outros sobre ele. Ele é identificado pelo outro, mas isso não significa que as pessoas devam aceitar ou que aceitem essa identificação. Isso pode gerar uma série  de problemas. Nós podemos nos ver de um jeito e as pessoas de outro, uma vez que a mensagem que transmitimos por meio da comunicação não expressa necessariamente o que gostaríamos que expressasse.
O outro só pode estabelecer alguma compreensão de quem somos na medida em que ele faz alguma ideia do que somos. Mas como alguém pode fazer uma ideia a respeito de nós? Ele pode apelar à fantasia (o outro imagina como somos) ou à mensagem que passamos a nosso respeito (e isso se dá por meio da comunicação por intermédio da linguagem, em que símbolos e ideias são trocados). Mas isso não quer dizer que todos compreendam os mesmos símbolos e ideias da mesma forma.
Logo, fala-se de dois processos, um é o de como os outros nos atribuem identidades, e o outro é o de como nós incorporamos isso (ou não). Ambos os processos, é claro, não são sempre coincidentes.

“O que está em jogo é exatamente a articulação desses dois processos complexos, mas autônomos: a identidade de uma pessoa não é feita à sua revelia; no entanto, não podemos prescindir dos outros para forjar nossa própria identidade.”
DUBAR, Claude. A socialização e construção das identidades sociais e profissionais. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 141



1.      Símbolo tanto pode ser entendido como algo que representa ou substitui algo. De forma geral, ele é usado para transmitir ideias e conceitos, ou seja, ele atribui significado a algo.



FONTE: SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM São Paulo: SEE, 2009.

domingo, 5 de maio de 2013

Papéis sociais e o teatro da vida cotidiana.


Representando papéis sociais

A preocupação com o que os outros pensam a nosso respeito é parte importante das relações entre os seres humanos. Isso acontece porque, de um lado, queremos fazer parte do grupo, sermos aceitos e não excluídos e, por outro lado, também gostaríamos que os outros nos aceitassem como somos.


Na Situação de Aprendizagem anterior, vimos que esse conhecimento é adquirido por meio do processo de socialização. Aprendemos em casa e na escola, com nossa família, nossos pais, irmãos, avós, primos, tios, colegas, professores e muitas outras pessoas como nos comportarmos diariamente. Esse aprendizado é constante e diário, e não termina nunca. Vimos também que, muitas vezes, nem sempre o que aprendemos funciona em todas as situações; desse modo, temos de nos adaptar ao imprevisível. Mas agora que já sabemos como aprendemos a viver em sociedade, é preciso compreender como utilizamos esse conhecimento para conviver.


 “Um papel, portanto, pode ser definido como uma resposta tipificada a uma expectativa tipificada. A sociedade pré-definiu a tipologia fundamental. Usando a linguagem do teatro, do qual se derivou o conceito de papel, podemos dizer que a sociedade proporciona o script (roteiro) para todos os personagens. Por conseguinte, tudo quanto os atores têm a fazer é assumir os papéis que lhes foram distribuídos antes de levantar o pano. Desde que desempenhem seus papéis como estabelecido no script, o drama social pode ir adiante como planejado. O papel oferece o padrão segundo o qual o indivíduo deve agir na situação. Tanto na sociedade quanto no teatro, variará a exatidão com que os papéis fornecem instruções ao ator.”
BERGER, Peter. Perspectivas sociológicas: Uma visão humanística. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 108-109.
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Erving Goffman e seu teatro imaginário
 Para entender como nos relacionamos com as outras pessoas no dia-a-dia, Goffman propôs que pensássemos as interações como se elas estivessem ocorrendo no espaço de um “teatro imaginário”. Desse modo, ele utiliza as mesmas denominações retiradas da linguagem teatral para se referir aos dramas sociais:

Palco: é onde os atores, ou seja, as pessoas  que participam ativamente da representação desenvolvem a interação. É composto de um “cenário”, compreendendo a mobília, a decoração, a distribuição das pessoas e dos objetos no espaço e outros elementos que compõem o “pano de fundo” para o desenrolar da ação humana executada dentro dele.

 Plateia: é onde ficam os observadores, ou seja, as pessoas que observam a interação, mas não atuam diretamente. Elas são parte importante da representação, porque as ações sempre são influenciadas por quem nos está assistindo.

 Fachada: é a parte da frente do palco, onde se desenvolve a representação. Goffman também utiliza esse termo para se referir ao tipo de comportamento que adotamos quando estamos diante de outras pessoas, ou em outras palavras, o papel.


“Fachada, portanto, é o equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou inconscientemente empregado pelo indivíduo durante sua representação.”
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Tradução Maria Célia S. Raposo. Petrópolis: Vozes, 1989. p. 29.
Bastidores: é a parte que fica por detrás  do palco, que não pode ser vista pelo público que está na plateia. Justamente porque não pode ser vista, é o local ideal para que os comportamentos que precisam ser manipulados para uma plateia deixem de sê-lo. É nos bastidores que os atores podem ficar mais à vontade, sair do papel, relaxar, enfim, deixar de representar.



Etnocentrismo e Relativismo Cultural 2013


“[...] cada qual denomina de bárbaro o costume que não pratica na própria terra”.
     Montaigne, filósofo do século XVI.

ETNOCENTRISMO
etno = é uma palavra grega que significa povo.
centr = vem de centro.
ismo = sufixo que designa prática de algo.
Etnocentrismo é a postura segundo a qual você avalia os outros povos a partir de sua própria cultura.

 Nesse sentido, todos nós somos etnocêntricos. Uns mais e outros menos. O problema do etnocentrismo é que ele não nos permite compreender como os outros pensam, já que de antemão eu julgo os outros conforme os meus padrões, de acordo com os valores e ideias partilhados pela minha cultura. E isso é um problema quando se quer compreender o outro, quando se quer pensar sociologicamente.
Logo, o etnocentrismo é uma postura que devemos evitar.

 Na Antropologia há um recurso metodológico para isso e ele tem a ver com uma atitude mental que os pesquisadores adotam diante do que é diferente.
 O antropólogo deve tornar exótico o que é familiar e tornar familiar o que é exótico.
 Ou seja, é preciso assumir uma postura de distanciamento ou afastamento diante de seu modo de pensar, agir e sentir. Ela está ligada ao estranhamento. É tentar se colocar no lugar do outro e compreender como ele pensa. Isso é o relativismo cultural.

 Uma das razões mais importantes para termos uma postura etnocêntrica está ligada ao medo. Medo do outro e, acima de tudo, medo de nós mesmos.
 Por que isso está ligado ao medo?
 Porque, quando nós dizemos que o outro é inferior, automaticamente nos colocamos em uma posição de superioridade. E, se somos superiores, somos os corretos, os melhores. Logo, não precisamos questionar nossa maneira de agir, pensar ou sentir. Pois, quando olhamos o outro e procuramos genuinamente compreendê-lo na sua diferença, muitas vezes não olhamos somente para este outro. Olhamos também para nós mesmos. Ao aceitar o outro na sua diferença, muitas vezes somos levados a refletir sobre nós. Verificamos que existem outras possibilidades de existência, outras formas de ver e pensar o mundo e que a nossa é uma entre muitas. Não é a única possível e talvez nem a melhor.
E por que não queremos fazer isso?
Porque aceitar o outro na sua diferença leva muitas vezes a refletir sobre a própria existência, e as pessoas nem sempre estão preparadas ou simplesmente não querem rever ou repensar seu ponto de vista. Gostamos de achar que  esse ponto de vista é o único possível, pois assim esquecemos que é somente uma possibilidade, uma entre outras. Com isso fugimos da responsabilidade de pensar sobre as escolhas que fazemos dizendo que: “não temos escolha”, que “o mundo deve ser assim”, “sempre foi assim”, “não há o que mudar” e que o “diferente está sempre errado”, “é sempre inferior”.
Ter essa atitude não significa deixar de ser quem você é, e sim, aceitar o outro na sua diferença, colocar-se no lugar  do outro. A essa postura damos o nome de relativismo cultural.

RELATIVISMO CULTURAL

O relativismo cultural é a postura segundo a qual você procura relativizar sua maneira de agir, pensar e sentir e assim se colocar no lugar do outro. “Relativizar” significa que você estabelece uma espécie de afastamento, distanciamento ou estranha- mento diante de seus valores, para conseguir compreender a lógica dos valores do outro.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Protágoras


Protágoras de Platão.

Platão, num dos seus diálogos, o Protágoras, ou os Sofistas, reproduz o seguinte mito, narrado pelo filósofo Protágoras a Sócrates, que duvidava ser a política uma atividade ao alcance de todos:           

"O homem, ao participar das qualidades divinas (a sabedoria das artes úteis e o domínio do fogo), foi primeiramente o único animal que honrou os deuses e se dedicou a construir altares e imagens das deidades: teve, além disso, a arte de emitir sons e palavras articuladas, inventou as habitações, os vestidos, o calçado, os meios de abrigar-se e os alimentos que nascem da terra. Apetrechados dessa maneira para a vida, os seres humanos viviam dispersos, sem que existisse nenhuma cidade; assim, pois, eram destruídos pelos animais, que sempre, em todas as partes, eram mais fortes do que eles, e seu engenho, suficiente para alimentá-los, seguia sendo impotente para a guerra contra os animais; a causa disso residia em que não possuíam a arte da política (Politike techne), da qual a arte da guerra é uma parte. Buscaram, pois, uma maneira de reunir-se e de fundar cidades para defender-se. Mas, uma vez reunidos, feriam-se mutuamente, por carecer da arte da política, de forma que começaram de novo a dispersar-se e a morrer.

Então Zeus, preocupado ao ver nossa espécie ameaçada de desaparecimento, mandou Hermes trazer para os homens o pudor e a justiça (aidós e dikê), para que nas cidades houvesse harmonia e laços criadores de amizade. Hermes, pois, perguntou a Zeus de que maneira deveria dar aos humanos o pudor e a justiça:
 ‘Deverei distribuí-los como as demais artes? Estas se encontram distribuídas da seguinte forma: um só médico é suficiente para muitos profanos, o mesmo ocorre com os demais artesãos. Será essa a maneira pela qual deverei implantar a justiça e o pudor entre os humanos ou deverei distribuí-los entre todos?’ E respondeu Zeus:
‘Entre todos, que cada um tenha a sua parte nessas virtudes, já que se somente alguns as tivessem, as cidades não poderiam subsistir, pois neste caso não ocorre como nas demais artes; além disso, estabelecerás em meu nome esta lei, a saber: que todo homem incapaz de ter parte na justiça e no pudor deve ser condenado à morte, como uma praga da cidade."

(PLATÃO "Protágoras ou os Sofistas" In: Obras Completas. Madri: Aguilar, 1974, pp. 168/9.)

quinta-feira, 18 de abril de 2013

1° ano. Socialização.


Quem somos?  O que aprendemos?  Como pensamos?
Os processos de socialização.

 O aprendizado da linguagem, das formas de convivência, das regras, constitui o que denominamos sociologicamente de socialização. Do ponto de vista da Sociologia, a socialização constitui um processo, ou seja, um desenvolvimento pelo qual todos nós passamos no decorrer da vida e que possui diversas fases. A socialização pode ser definida, em linhas gerais, como a imersão dos indivíduos no “mundo vivido”, que é ao mesmo tempo um “universo simbólico e cultural” e “um saber sobre esse mundo”. Em outras palavras, trata-se do processo de aprendizado de tudo aquilo que nos permite viver em sociedade. Desse modo, dizemos que nenhuma pessoa nasce membro de uma sociedade, mas precisa ser gradualmente introduzida nela, por meio da interiorização das suas normas, regras, valores, crenças, saberes, modos de pensar e tantas outras coisas que fazem parte da herança cultural de um grupo social humano. Chamamos de socialização primária a primeira fase da vida, em que aprendemos a falar, a brincar e a conviver com as outras pessoas, muitas vezes imitando o que nossos pais e as outras crianças fazem.

 “A socialização primária é a primeira socialização que o indivíduo experimenta na infância, e em virtude da qual torna-se membro da sociedade.”
BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 175.

 Durante a socialização primária, não escolhemos as pessoas responsáveis por esse processo. Em outras palavras, não escolhemos a família em que nascemos. Para as crianças, essas pessoas se tornam seus “outros significativos”, pois são os responsáveis por cuidarem delas e lhes apresentarem, por assim dizer, o mundo ao redor. Ora, nossos pais, avós e irmãos também têm seus próprios modos de pensar e ver o mundo, de modo que aquilo que nos ensinaram quando éramos crianças tem relação com a sua maneira de ver as coisas. Por essa razão, tendemos a reproduzir os hábitos e os costumes dos nossos locais de criação e de nossa linhagem. Somente mais tarde, quando entramos em contato com pessoas de origens diferentes, percebemos as diferenças entre nosso modo de pensar e agir e o dos outros.

 “A socialização secundária é qualquer processo subsequente que introduz um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade.”
BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 175.

 Durante sua vida, o ser humano passará por inúmeras outras “socializações secundárias”, à medida que passa a frequentar outros espaços sociais e a interagir com novos grupos. Cada vez mais, precisará interiorizar novos conhecimentos e saberes específicos, para lidar com a realidade de forma bem-sucedida. Um exemplo de processo de socialização secundária é a incorporação de saberes profissionais que preparam o indivíduo para o mundo do trabalho. Isso pode ser feito no interior de uma instituição educacional, como uma faculdade, por exemplo, ou no próprio ambiente de trabalho, à medida que o funcionário aprende, na convivência com os colegas e por meio das instruções  de seus superiores, o que é preciso para desenvolver suas atividades.

FONTE: (SP-SEE. Caderno do aprendiz: sociologia, EM 1ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009)